Durante mais de duas décadas da minha vida profissional, estive diretamente na evolução de uma indústria que saiu de sistemas estruturados para uma arquitetura cada vez mais complexa, conectada e orientada a serviços. Ainda assim, a essência lógica permaneceu, baseada em comportamentos esperados e determinísticos. Mais recentemente, com o advento da ciência de dados e da inteligência artificial, os sistemas — que apenas executavam tarefas previsíveis — passaram a realizar análises, aprender, tomar decisões e atuar de forma cada vez mais autônoma.
O software, que era por essência um conjunto de instruções bem definidas, construídas por pessoas, executadas por máquinas e organizadas por processos, sustentou com enorme competência uma geração inteira de empresas. Sinto orgulho de ter ajudado a construir negócios robustos baseado neste modelo — pessoas, processos e tecnologia — mas como nos convencem Rafael de Faria Scheidt (o Foka) e Johnatan Ricardo Martins ao longo desta obra, este modelo não é mais suficiente.
Estamos diante de uma mudança estrutural. Talvez uma das mais profundas que já vivemos, não apenas na engenharia de software, mas na forma como organizações operam, competem e se reinventam, em todos os setores, a partir da inteligência artificial.
Não basta desenvolver programas que executam instruções. Pela primeira vez, precisamos construir sistemas que interpretam, decidem, aprendem e, aí sim, executam. Que transcendem a função de ferramenta e vestem com desenvoltura o status de um agente.
O livro A Nova Engenharia de Software com IA nasce exatamente nesse ponto de inflexão. Com uma genética rara: não se perde no discurso. Vai direto à aplicação.
Ao percorrer seus capítulos, o leitor encontra muito mais do que conceitos. A estrutura consistente e prática traz modelos para construir agentes, integrar ferramentas, organizar workflows, trabalhar com sistemas multiagentes e, principalmente, colocar tudo isso em produção com qualidade.
Você, leitor, tem em mãos um livro técnico, de enorme utilidade para os profissionais de engenharia de software que desejam atuar na fronteira desta nova realidade. Mas seria um equívoco limitar esta obra ao público técnico.
Este livro também é, de forma provocadora e poderosa, uma fonte de reflexão para gestores, executivos e conselheiros.
Embora o conteúdo técnico seja preponderante, especialmente nos capítulos que exploram arquitetura, agentes e implementação, na Introdução e na Conclusão os conceitos e provocações nos arremessam para outros campos: da estratégia empresarial, liderança e governança.
O que está sendo discutido aqui não se resume às mudanças, imperativas, no desenvolvimento de software. Se antes a execução despendia muito esforço, tempo e recursos, hoje o cenário é outro, e a produção tende a se tornar abundante, veloz e automatizada.
Isso muda tudo.
O foco deixa de ser operar e passa a ser orquestrar.
Promover a fina sintonia entre pessoas, agentes, dados, processos e decisões.
Neste novo contexto, surgem o que podemos chamar de organizações agênticas, onde humanos e agentes digitais trabalham de forma integrada, ou seja, compartilham decisões, ampliando de maneira exponencial a capacidade de execução.
E isso não é teoria nem ficção.
Na prática, vemos processos sendo redesenhados, camadas organizacionais reduzidas, decisões tomadas com o apoio de agentes e ganhos de produtividade que vão muito além do incremental. E redefinir o modelo de execução traz implicações diretas na gestão e na forma de liderar.
A inteligência artificial, portanto, precisa entrar na pauta de fundadores, executivos e conselhos de administração. Não como um tema facultativo, inerente à tecnologia. Mas como um tema estratégico, organizacional e de governança.
Para assegurar a longevidade, as empresas vão precisar calibrar seu GPS, norteadas pelos conceitos de organizações agênticas.
E isso exige novas perguntas:
- Como governar decisões tomadas por agentes?
- Como garantir qualidade, segurança e alinhamento aos valores do negócio?
- Como estruturar modelos operacionais onde humanos e agentes coexistem?
- Como preparar talentos para este novo contexto?
Neste cenário, a governança deixa de ser um conjunto de processos e passa a ser um sistema vivo, com a dinâmica do tempo real, apoiado por inteligência artificial.
O papel dos conselhos se torna ainda mais relevante. Não para reagir, mas para antecipar e orientar a mudança.
Há também uma dimensão humana que não pode ser ignorada.
A inteligência artificial não chega como concorrente, mas como aliada.
Ela não elimina o papel das pessoas, e sim o transforma profundamente.
Tarefas repetitivas tendem a desaparecer.
Mas na mesma proporção, isso amplia o campo das competências essencialmente humanas: pensamento crítico, ética, empatia, curiosidade, criatividade e propósito.
Se delegamos o como aos agentes, ganhamos espaço para aprofundar o porquê e o para quem.
E talvez essa seja uma das maiores oportunidades do nosso tempo.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que inovar não implica em criar algo totalmente novo. Na maioria das vezes é, simplesmente, resolver problemas conhecidos de outro jeito, com mais eficiência, agregando mais valor para o seu cliente. O que estamos vivendo agora é exatamente isso — numa escala sem precedentes.
A nova engenharia de software não substitui a anterior. Ela a expande. Na mesma medida que muda crenças, muda a forma de organizar processos e de realizar tarefas. Para os usuários finais, os benefícios são incalculáveis, com ganhos de produtividade, qualidade e conforto.
Por tudo isso, este livro chega num momento oportuno. Enquanto explica uma nova tecnologia, ajuda a edificar uma nova forma de pensar. E sobretudo, provoca o leitor a assumir um papel ativo nesta transformação.
Antes de desejar uma boa leitura, quero registrar meu reconhecimento aos autores pela capacidade de traduzir um tema complexo em algo estruturado — aplicável e relevante — tanto para quem está na linha de código quanto para quem responde pela estratégia.
Este é um daqueles livros que não se limitam ao seu conteúdo técnico. Ele amplia a forma como enxergamos o futuro. Por isso me despeço com uma provocação que resume bem o espírito desta obra:
O futuro já está sendo moldado por quem sabe construir e orquestrar estes novos agentes digitais. Então, a pergunta que fica não é se a IA vai transformar o seu trabalho e o seu negócio, mas como você vai liderar essa transformação.
Ignorar esse contexto é o mesmo que seguir dirigindo enquanto a luz no painel do carro alerta para troca de óleo. O motorista pode até subestimar o aviso, adiar a manutenção, mas mais à frente, inevitavelmente, o prejuízo vai ser crescente.
A inteligência artificial já acendeu o sinal. Adiar decisões pode parecer confortável no curto prazo, mas o custo da inércia tende a ser cada vez maior.
Cabe a líderes, executivos e conselheiros reconhecer o alerta e assumir a pole-position, para orientar as decisões que irão definir a trajetória das organizações a partir daqui.
Moacir Antonio Marafon
- ▸ Engenheiro civil com pós-graduação em Ciência da Computação e em Planejamento Econômico pela UFSC
- ▸ Sócio-fundador e Conselheiro da Softplan e Starian
- ▸ Vice-presidente da Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (ACATE)